Os Pés Frios
Dentro da Cabeça

António Pocinho
Fenda

Não á fome que não dê em fartura. António Pocinho, que não publicava desde O Elucidário Sexual, acaba de dar à luz dois belíssimos livros na Fenda. São dois gémeos, qual dos dois o mais bizarro. O segundo é uma reedição. Quanto a Os Pés Frios Dentro da Cabeça é um livro deveras estranho, que inclui Livro de Cheques, Livro de Mortalhas, uma sala de espera e muitos mistérios e ministérios. É um livro que incorpora diferentes linguagens do mundo moderno (financeira, científica, etc), numa fusão completamente desconcertante. Daí a introdução de siglas, por exemplo, e a recorrência à citação de jogos de computador e de vocabulário da economia. Sem nunca deixar de ser lírico, o autor serve-se do humor negro e do sarcasmo para contar pequenas histórias e situações e para desmontar o poder e as instituições. Melhor do que ninguém, o autor define assim os textos que criou: "Estes estranhos objectos - um composto de ácidos trágico, lírico, e lúdico, conforme literatura inclusa - foram mantidos em segredo pela Comissão para a Investigação de Fenómenos Para-literários e vêem agora finalmente os seus arquivos abertos a académicos, estudiosos e coleccionadores e, quem sabe, se não haverá até leitores interessados.
Tendo pela primeira vez aparecido no interior do autor, nas suas terras altas - onde nascem a desolação, a ironia e a palavra - , estes textos foram levados com as marés, do interior para o litoral de cada um, onde se espera que façam bom proveito.
Embora, hoje em dia, haja mais livros que marés, uma coisa é certa, enquanto houver uma única sílaba de areia, haverá sempre mais leitores que marinheiros.

José Gouveia

P.S. These are the reviews of two "twin" books ( being the second one a re-edition), by our very own special collaborator Antonio Pocinho. We're very sorry but the English translation of these exquisite books is not yet available, you'll just have to keep reading his twisted chronicle.

 

 

A Ilustre Máquina
de Ramires

António Pocinho
Fenda

"Pode a fotografia ser um género literário, a par da poesia, do conto, da escritura notarial e do sermão? Depois da leitura de A Ilustre Máquina de Ramires a resposta é obviamente sim. Este livro, que inaugurou esse género literário há onze anos atrás, é agora reeditado em versão panorâmica, porque os tempos são outros, as técnicas evoluiram e as mentalidades não sofreram qualquer adiantamento.
Estas páginas pretendem tão só que uma palavra valha mais do que mil imagens (cotação às zero horas de hoje). São a aventura de um fotógrafo que não usa câmara dedicada a todos aqueles que, para escrever, não usam nem caneta nem teclado. Para que não esqueçam: o cérebro é a câmara mais escondida que existe."
Pois é, este é um livro de fotografias, ou melhor de legendas de fotografias porque as fotografias não estão lá. Nem poderiam estar. Onde é que se pode fotografar isto "macro-fotografia de grãos de medo", "fotografia aérea de Portugal, na qual se notam nitidamante os contornos da esfera armilar e as quinas" ou ainda esta: "Pormenor de deus. Foto de arquivo".
Enfim, a literatura tem as suas surpresas. Não é todos os dias que se apanham livros assim. Gama já um na livraria mais próxima.

José Gouveia

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