
Linda e Dircinha Batista
Colectânea «Acervo Especial»BMG Ariola / RCA, edição 1993 (s/ data de gravação)
Eis um daqueles discos musicalmente tão incorrectos que deveria estar arredado de qualquer publicação que se preze. Velha colectânea perdida no fundo de algum catálogo, quase sem preço, sem data de gravação e com uma ilustração na capa bastante desfocada. Também elas perdidas para lá dos meados do século que vai passar, as irmãs Linda e Dircinha Batista são o maravilhoso espelho do mais profundo cançonetismo brasileiro. Quando o poder as namorou, elas foram rainhas, quando o poder as esqueceu, o Brasil virou-lhe as costas e deixou-as morrer na miséria, loucas e abandonadas. Uma autêntica pérola.
This is one of those records that should have been forgotten in the middle of a catalogue of some record company, almost with no price, no recording date and with a cover illustration very much out of focus. Linda and Dircinha Batista are also lost in the mist of this century but are the mirror of the Brazilian song in its most deep sense. They were great stars in their time but after the hype everyone turned their backs on them and let them to die in complete misery, madness and abandonment. A rare pearl.
João Eduardo Ferreira
Peace Orchestra
«Peace Orchestra», G-Stone/MVM, 1999
Pólo introspectivo e cerebral da mais prodigiosa aventura musical a sair da Áustria fin de sciècle, Peter Kruder reorienta e aprofunda os argumentos da sua escrita celular, num hibrído ensaio sobre as ansiedades e receios do groove electrónico contemporâneo. Um admirável esforço de diplomacia, jogado em favor de um peculiar conceito de paz e harmonias universais. Racionalidade e libido em carne viva...e tatuada: «We come in peace».
Introspective and cerebral pole of the most prestigious musical adventure to come out of fin de siecle Austria. Peter Kruder reorients and deepens the arguments of his cellular writing, in a hybrid rehearsal on the anxieties and fears of contemporary electronic groove. A good effort of diplomacy, played in favour of a peculiar idea of peace and universal harmony. Rationality and libido in raw...and tattooed flesh: «We come in peace».
Bruno Bènard-Guedes
The Cinematic Orchestra
«Motion» Ninja Tune / MVM, 1999
Existem discos fundamentais. Este é um deles. De uma forma extremamente sóbria, sólida e eficaz, a Cinematic Orchestra demonstra como a arte mais elaborada acaba sempre por parecer simples e lúdica. Aí reside o golpe de génio do artista Jason Swinscoe, observador atento das manobras da Ninja Tune e das outras etiquetas que navegam em águas da electrónica e do sample. Ele consegue fazer um sumário histórico sobre a eterna atracçã o existente entre uma certa pop sintética e erudita e o jazz orgânico e popular. Um álbum muito especial para iniciar um novo ciclo musical, um álbum para comemorar o fim de um século.
Some records are essential, this is one of them. In a sober, solid and efficient way, the Cinematic Orchestra shows that the most elaborate art always ends up looking simple and lucid, this is artist Jason Swinscoe's struck of genius. He pays quite a lot of attention to Ninja Tune and other labels that deal with electronic and sample music, managing to historically summarise the ongoing attraction between a certain synthetic and erudite pop with organic and popular jazz. A very special record to start off a new musical wave, a record to commemorate the end of the millennium.
João Eduardo Ferreira
Elza Soares
«Trajetória» Universal, 1999
Elza Soares é uma mulher única. Mulata com mais de sessenta anos, olhos rasgados, pernas torneadas, uma figura moldada por plásticas sem conta. O Rio de Janeiro quando é cantado por esta sambista de gema parece regressar das entranhas do morro onde ela nasceu ou das ruas mais gastas do centro da cidade. Uma espantosa criação onde a voz, agora rouca e quebrada, cede lugar a uma alma, vivida em pleno, onde a alegria, a dança e o music-hall se misturam com o melodrama, a amargura, e, evidentemente, o samba.
Elza Soares is a unique woman. A black woman over sixty with beautifully eyes and legs, a figure shaped by plastic surgery. When singing samba she seems to go back to her roots, to the morro where she was born, to the dirty streets of the her hometown centre. A wonderful creation where her hoarse and rusty voice gives place to a fulfilled soul where joy, dance and music hall mix with melodrama, bitterness and obviously samba.
João Eduardo Ferreira
Neina
«Formed Verse» (cd Mille Plateaux 1999)
Avolumam-se as razões pelas quais não deveria falar neste disco. Vou novamente falar dos Oval. Do seu disco «94 Diskont». Da importância capital do erro na composição. Do universo electrónico contemporâneo que percorre todos os discos julgados importantes para uma análise perfeita dos 90. Mas não posso também passar ao lado de um disco que se coloca em posição privilegiada na pole position para 2000.
Do Japão, com amor, quatro japoneses demonstram que «Scope» de Nobukazu Takemura não foi fruto de isolacionismo voluntário, mas sim da chegada da Mego ou da A-Musik à ilha oriental. São setenta minutos que pedem por mais setenta de repetição, mas são os necessários para acharmos que estamos diante uma Obra-Prima, um marco romântico, e um dos discos da década para quem acha que ter um Peace Orchestra não lhe vai modificar nada no seu dia-a-dia.
There's plenty of reasons why I shouldn't write about this record. I'm writing about Oval again, their record "94 Diskont". The vital importance of error in composing. The contemporary electronic universe that we can find in all records thought to be essential when analysing the nineties. I can't let this one go by, it's too important, it's up there in the pole position for 2000. From Japan, with love, four Japanese show that "Scope" by Nobukazu Takemura wasn't the result of voluntary isolation but the result of the arrival to the oriental Island of Mego and A-Musik. Its glorious seventy minutes make you want to hear it once more, but that's enough for you to think that you're hearing a master piece, a romantic landmark and one of the records of the decade for those who think that having a Peace Orchestra is not going to change their everyday life.
Pedro Santos
Gustavo Lamas
«Celeste» (cd Traum 1999) Aterrou ontem no aeroporto de Colónia o cidadão argentino Gustavo Lamas, sendo recebido por uma inesperada e calorosa recepção por partes de algumas dezenas de pessoas que ali se tinham deslocado para o efeito. No meio de algumas entusiasmantes manifestações de apreço de parte a parte, Señor Lamas disse que estava muito satisfeito pelo reconhecimento dado pelo povo alemão, agora que o seu disco «Celeste» vê a luz do dia em edição nacional. Para delírio dos presentes citou Thomas Brinkmann e mais um ou outro nome de difícil percepção, e revelou algum fascínio pela cultura electrónica alemã. Disse ainda, antes de ser conduzido ao seu carro, que o techno só por si não lhe interessa. Sossegou os que o escutavam rematando que o segredo estaria na massa. Falou em castelhano e não estava ninguém da Chain Reaction à sua espera.
Argentinean citizen, Gustavo Lamas, landed yesterday in Cologne's airport. Welcoming him was a worm and unexpected crowd that went there especially for that purpose. In the mist of all that enthusiastic welcome, Señor Lamas told the crowd he was very pleased for all the recognition he got from the German public now that his most recent record "Celeste" is out. Pleasing everyone present he talked of Thomas Brinkmann and some other more or less recognisable names and revealed some sort of fascination for German electronic culture. He also said, before getting into his car, that techno by itself doesn't interest him. He eased everyone around him by saying that the secret is in the doe. He spoke "castelhano" and there was no one there from Chain Reaction to welcome him.
Pedro Santos
Sachiko M
Günter Müller & Otomo Yoshihide «Filament 2» (cd For 4 Ears 1999)
O ritmo exigido na vida quotidiana cai fulminado perante o espaço proporcionado por __________ (inserir título). Se atentos, somos mergulhados em câmara escura com tudo o que a escuridão sugere/oferece - o espaço é nosso. O espaço é nosso, sem mapa, com pequenas protuberâncias que definem um percurso sobre o ruído de superfície. A sua disposição mais ou menos livre no terreno é estudada para suaves mutilações. Ali entramos pelo prazer de um fio de sangue quente. O aparelho auditivo sabe do que gosta, mas por vezes necessita de perder um membro ou dois.
The rhythm required in everyday life falls apart when faced with _______. If paying attention, we can dive into a dark room with all that darkness can suggest and offer- space belongs to us. Space belongs to us, with no map, defining a path over the surface of noise. Its placing, freely on the grounds, is studied to achieve slight mutilations, like the pleasure of a stream of hot blood. Your ears know what they like, but sometimes need to loose a member or two.
José António Moura
Shirt Trax
«Good News About Space» (cd Or 1999)
Estes são os sons que só aparecem quando ninguém está na sala. Difícil provar sequer a sua existência. Em «Poltergeist» apenas a menina conseguia ver o que vivia dentro da chuva na tv (micro-movimentações em) campos de estática cheios de sol; erros identificados ao pormenor do milímetro; auto-reprodução e auto-gestão; cortes e rasgões deliberados num sistema complexo que se quer simples; Mark Fell @ snd; som do som do som; tudo quase talvez não exactamente bem controlado; no backup (do or die); dispensamos humanos.
These are the sounds that only come up when there's no one in the room. Its hard to prove their existence. In «Poltergeist» only the little girl could see what lived inside the Tv. (micro-moving in) static fields full of sun, errors spotted to the last detail; auto-reproduction and auto-managing: intended cuts and scratches in a complex system that is made to be simple; Mark Fell @ snd; sound of sound of sound; everything almost maybe not quite controlled; in the backup (do or die); no need for humans.
José António Moura