Sopa d e Bruxas <
> "It is indifferent to saie in the English toong; She is a witch; or, She is a wise woman
Na lingua inglesa, e' indiferente dizer "ela e' uma bruxa" ou "ela e' uma mulher sa'bia"
R. Scot, Discourse on Witchcraft(ita) (Discurso sobre Bruxaria), 1584.<
> R. Scot, Discourse on Witchcraft(ita) (Discurso sobre Bruxaria), 1584. Todas as mulheres sao bruxas, mas umas ha' mais iguais que outras. Em Blair Witch Project(ita) ha' pelo menos duas: a mais-que-visivel Heather, que comanda a equipa de filmagem jusqu'au bout de la nuit(ita), a derradeira, na floresta de Burkittsville, e outra, invisivel, que nos espeta os dedos gelidos na cabeca durante todo o filme: a bruxa (sub)propriamente dita.
O que torna Blair Witch (ita) tao fascinante? Nao e o tipico filme de terror. Partilha coincidencias, tempos, tropos, ate algumas imagens do genero, mas nao preenche esses requisitos de uma forma total ou simplista.
Nao pode ser enquadrado no splatter (Texas Chainsaw Massacre), no ultra-previsivel dos anos 80 (Nightmare on Elm Street), no psicologico (The Shining), no de culto (Hellraiser), no metalinguistico (Scream), ou no high-tech (como Cube, estreado este ano, do Canada, mas francamente pobre).
E isto para mencionar apenas os hits. Mas e dai', BW tem de tudo um pouco e sai a ganhar...
Mas nao e isso que me importa. O filme tem muito por onde se lhe pegue para discutir: o facto de que um filme tao barato (35 mil dolares) ter lucrado estupidamente, de toda a publicidade ter sido instigada no novissimo circuito de pret-a-porter da Net, de todo o processo de construcao do filme. Nem procurar a geneologia do filme em falsos documentarios, como a serie In Search Of...(ita), de quem os realizadores se declararam fas na infancia.
O que me interessa e um aspecto mitologico. Mitologia e uma palavra utilizada pelos proprios autores, quer atraves da feitura de um pseudodocumentario televisivo para acompanhar a estreia do filme propriamente dito no cinema (o documentario entrevista os <> dos desaparecidos, os policias que fizeram as buscas, comentarios de especialistas e professores do assunto, etc, tudo < >. Intitula-se Curse of the Blair Witch (ita)), quer no site oficial (www.blairwitch.com). Aqui e que esta o busilis: mito etimologicamente e "narrativa", e, segundo Barthes, e uma "fala": logo, individual. Blair Witch (ita) e uma concatenacao de todos os contos tradicionais europeus - e nao so - que conhecemos desde pequenos, mas bebe-os aos dias anteriore dos embelezamentos e acucaramentos progressivos, de Perrault a' Disney. Aos nossos olhos civilizados (ita), esses contos originais seriam crueis, mas de intuitos claros: educar, fomentando o terror, demonstrando que perigos esperavem os desprevenidos e "inocentes". Horacio nao iria gostar, mas fas gregos das Tragedias talvez entendessem.
Ha pequenos motivos (vide Propp) que se repetem em BW, ou ate decalcados
- inconscientemente ou nao - dos contos mais badalados do mundo. Verifiquemos alguns desses pormenores. (O que se segue nao e muito bem organizado, mas aguentem-se comigo):
1) Os Tres Porquinhos: Heather Donahue, a realizadora, Joshua Leonard, o cameraman, e Michael Williams, o engenheiro de som, embrenham-se na floresta, perdem-se e sao constantemente ameacados pelo Lobo Mau.
Nota: conseguem perceber o porque desses nomes em particular para as personagens?
2) Capuchinho Vermelho: e' Heather quem tem a ideia, quem instiga 'a perdicao (e por isso, mulher-bruxa a moda de Eva), quem pede desculpas no fim, mas ja sem efeito, quem cai por ultimo. E usa sempre um capuz...
3) O Pequeno Polegarzinho: a historia das criancas abandonadas pelos pais na floresta encontra aqui alguns ecos, e os trilhos construidos pelas criancas, em BW, nao e mais do que o processo que os realizadores (verdadeiros) dizem ter trabalhado 'a distancia dos actores e todas as pistas da <>.
4) Hansel e Gretel: apos o desaparecimento de Joshua, Heather e Michael, as duas criancas perdidas, encontram a casa isolada da bruxa e julgam-se salvos (mas nao ha chocolate).
5) O Flautista de Hamelin: no pormenor das criancas desaparecidas alegremente pela caverna: aqui, ha risos infantis na noite e marcas de maozinhas na parede.
6) Barba Azul: aspectos sexuais sao apagados e algures na casa escura ha uma divisao em que as vitimas finalmente expiram...mas onde? Onde? Rapido!E, claro, tudo se passa no mais apropriado local: a interminavel, escura, a-referencial, pululante de sons, desvios e enganos, a Floresta Derradeira. Ha ainda objectos-protagonista: o homem de pauzinhos recorda um pentagrama (mas nao o invertam!) e a mandragora, planta mal(e ben)dita; os montinhos de pedra ecoam betilos e menires; o facho forca (ATENCAO! COM CEDILHA! FORSSA) - e o que encerra este facho? Coisa simples, sem explicacoes de maior, que funcionam. Essa a forca (forssa) da simbologia, a fraqueza da semiologia (que e, por exemplo, o ponto de partida de Cube).
E, no final, nao ha moral da historia. Essa e' uma invencao de Perrault e da sua prima Marie-Jeanne, L'Heritier de Villandon, no seculo XVII. Tambem nao existe nenhuma solucao final (ita), como pretendem os paranoicos de JFK, Jack o Estripador ou Sa Carneiro. Diga-se, de passagem, que a maioria dos criticos norte-americanos davam sempre alguma explicacao verbal do filme: >e' Josh o assassino>>, ,Heather e' golpeada na cabeca(?)>>. <>. Mas nao ha qualquer som de golpe, nao ha "assassino", nao ha Porque. Essa e' a beleza de Blair Witch.
Aconteceu. Nao ha principe encantado, nao ha lenhador, nao ha intervencao espiritual de ultima hora que salve do Lobo Mau. So que nem sabemos se e' um lobo, nem se mau e' um juizo de valor correcto.
Cada vez mais estou de acordo com uma personagem que me e' muito querida.
Eu tambem nao acredito em bruxas, <>pero que las hay...>> Info: BLAIR WITCH PROJECT
Realizadores, criadores Daniel Myrick, 35 anos Eduardo Sanchez, 30 anos
Produtora, Haxan Films o filme custou 35 mil dolares, e foi vendido por 1.1 milhao a Artisan Entertainment, que fez o marketingCronologia da Producao (simplificada, e roubada a TIME ASIA de Novembro 1999)
Desde agosto de 97 que ha referencias ao filme <>encontrado por investigadores>>
Em Junho 98 abre o site oficial www.blairwitch.com (check it out)
A 23 Jan 99 e apresentado pela 1a vez, num festival Indy
19 maio Cannes
12 Julho documentario televisivo estreia em canal especializado Julho - trailers, panfletos de PROCURAM-SE, radio, o comic (ver flirt anterior), o CD, etc.
16 de Julho de 1999: estreia nacional nos EUA e....BOO(M)!!!
Este texto, recebido por e-mail e sem acentos,não teve tempo de ir à revisão antes de entrar nas máquinas. Por tal facto pedimos desculpa aos nossos leitores. Preferimos, neste caso, disponibilizar em tempo útil, a crítica ao filme Blair Witch Project do nosso correspondente em Seul.