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AINDA HÁ MUITO PARA FAZER.OBRIGADO. Alberto Pimenta.
Edição & etc, 1998

São poemas "read & mad", poemas ready-made, poemas que já estão feitos nas páginas dos jornais, na publicidade, no discurso dos políticos, nas palavras de Alberto Pimenta e naquilo que as pessoas dizem. É o universo delirante da circulação das frases e dos clichês que Alberto Pimenta reúne nesta obra em verso não rimado, como nesta estrofe: "um oficial do exército recebeu 70 000 contos/ um deputado da nação/ recebeu 5 000 acções da EDP/ mas perdeu-as/ porque não o enviou/ esta corrente foi aderida/ por JOÃO PINTO/ e por RONALDINHO/ e ainda por um crítico musical que/ graças a ela/ se libertou da sua cadência pungente/ e ganhou um novo álbum/ da sua banda preferida."
Alguém conhece algum poema que fale de ARIEL, o detergente? Ei-lo: "de qualquer modo/ é uma mensagem cultural/ tal como a/ do ARIEL/ esse de facto/ um espírito poderoso/ reencarnado/ no melhor detergente/ e comprovei-o/ diz Marta/ que tem 42 anos/ é doméstica/ vive em Lisboa/ e não se cansa de afirmar:/desde que uso/ ARIEL/ sou outra mulher (...)".
Dois pontos: "sempre os impérios/ tiveram/ os seus escolhidos/ cavalheiros aristocratas gente de bem.../ mas nunca pretenderam/ como agora/ negá-lo ou ocultá-lo/ atrás das duplicações da própria bebedeira".
Atenção, que este livro é uma desmontagem da trivialidade e por isso não é recomendável a pessoas dadas à poesia trovadoresca e pós-moderna.

"Read & mad" poems, ready-made poems, made and at hand in newspapers, publicity, politicians' speeches, Alberto Pimenta's words and in things that people say. It's the delirious universe of sentence and clichés circulation, gathered on this book by Alberto Pimenta in blank rhyme verse, like this stanza: "an Army officer was given 70 000 thousand escudos/ a nation politician received 5 000 EDP shares/ but lost them/ because he didn't send it/ this chain was linked by JOÃO PINTO/ and by RONALDINHO/ and also by a music critic that/ thanks to it/ broke free from his poignant cadence/ and won a new album/ of his favourite band."
Does anyone know a poem about dish-cleaner ARIEL? Here it is: "anyhow/ it's a cultural message/ such as the one/ of ARIEL/ that one in fact/ a powerful spirit/ reincarnated/ in the best dish-cleaner/ and I proved it/ says Marta/ that is 42 years old/ housewife/ lives in Lisbon/ and is not tired to repeat:/ sine I picked up ARIEL/ I am a different woman (…)"
Two points: "empires always /had/ their chosen ones/ gents aristocrats household sons…/ but they never wanted to/ as now/ dent or hide it/ behind the duplications of drunkenness."
Beware, this book is a deconstruction of triviality, o it's not suitable for people who like minstrels' or post-modern poetry.

António Pocinho