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Á B R I C A DAS M E N T I R A S
L I E S F A C T O R Y
"Nada é verdade, tudo é permitido"
Duque de Cacia, séc. XVIIUM PRÓ-DIA NA MINHA VIDA
Hoje acordei muito deprimido. Ando a tomar umas cápsulas de Malabar 2 000 para uma inflamação no astragalo (um osso do pé, raramente lembrado), que têm como efeito secundário o aparecimento nos 7 primeiros dias de sintomas de angústia, pânico e gaguez ocasional. Felizmente que só o primeiro efeito colateral é que vingou. Espeto-lhe com um Prozac, mas como este só começa a fazer efeito ao fim de 15 dias, quando se calhar eu já nem preciso, afinfo-lhe com um Transamidol 10, de efeito imediato. Passada uma hora estava com uma granda moca, mas a neura tinha ido parar às urtigas.
Porreiro! Agora estava bem mas não conseguia trabalhar. Vou ao armário dos medicamentos e descubro uma lamela de Torax abandonada e já fora do prazo de validade (coisa em que eu não acredito), que é um medicamento para os brônquios, mas que tem como efeito colateral a excitação. Procuro explorar o efeito colateral, e finalmente estava em condições de lavar a loiça da véspera. Para a loiça, uso um detergente com pró-vitaminas B1 e B2, que permanecem no detergente que fica agarrado ao prato, e que em contacto com os alimentos se transformam em vitaminas.
Tomo uma cápsula de Propecia para a queda do cabelo (tenho o cabelo todo, mas assim evito que ele possa vir a cair) e saio de casa todo excitado e activo, como uma mulher moderna que usa Inatel com oligo-elementos, e vou para o café ler o jornal. É aí que vejo uma notícia, que muito me preocupou. Um estudo de uma equipa de investigadores de uma universidade norte americana, realizado na Lituânia (não se percebe porque é que foram tão longe) com a colaboração das autoridades sanitárias locais, demonstra que mesmo pessoas magras como eu podem potencialmente ser gordas e desenvolver a qualquer momento essa faculdade. Isto é, uma pessoa pode ser gorda sem o saber. Eu tinha todos os sintomas: excesso de apetite, borbulhas, dificuldade em me baixar. Decidi então passar pela farmácia e comprar uma embalagem de Xenical. Era preciso receita médica, mas eu demonstrei claramente que não me conseguia baixar. Ali mesmo, pedi um copo de água, e tomei logo duas drageias, não fosse o diabo tecê-las.
O dia lá se foi passando entre vitaminas, pró-vitaminas e anti-histamínicos. Regresso a casa. Estava na hora dos comprimidos da noite: o Viagra (pelo sim, pelo não) e uma nova fórmula que me mandaram da América contra a timidez. A combinação dos dois prometia uma grande dose de sucesso... E vinte miligramas de sucesso até que já não seria mau...
Vou mas é tomar uns valiums e dormir.
"Nothing is true, everything is allowed"
Duke of Cacia, XVII centuryA PRO-DAY IN MY LIFE
I woke up today quite depressed. I've been taking Malabar 2000 capsules, due to an inflamed astragalus (a.k.a. anklebone, not often referred to), and that have as a secondary effect, at least in the first seven days of the treatment, the emergence of anguish, panic and occasional stuttering symptoms. Fortunately for me, only the first collateral effect prevailed. I flush a Prozac on it, but this one only works after a couple of weeks, and maybe by then I won't even need it, so I'll take an immediately effective Transamidol 10 instead. A hour after I was totally wasted, but the headache was, like, gone.
Cool! I was now well enough, but it was impossible to work. So I open the medicine cabinet and come across an abandoned Torax lamella, which validation date (a thing I do not believe in) expired long ago. This is something for your bronchi, but one of its effects is excitation of the system. So I'm bound to experience this collateral effect, and I find myself able again to do yesterday dishes. For the dishes I use a detergent with pro-vitamins B1 and B2, that remain stuck to the plates after washing and when in contact with food are turned into vitamins.
Then I take a Propecia capsule to avoid my hair from falling (I've got it all, but this way I assure I'll never be bald) and I leave home all turned on and active, just like a modern woman that uses Inatel with oligo-elements. I reach the café where I read my paper, in which I spot a piece of news that disturbs me a lot. A research team from one North American university is studying in Lithuania (I don't know why so far), in collaboration with the local sanitary authorities, and comes to the conclusion that everyone, including skinny people like me, can potentially gain weight and develop at any moment such a capacity. That means that anyone can get fat without knowing it. I had all the symptoms: I have appetite excess, I've got pimples, and it is hard for me to low down. So I go a chemist shop and get a box of Xenical. The prescription was obligatory, but I was eloquent enough showing that I couldn't get down. Right there on the spot I asked for a glass of water and swallowed two pills. You never know what tomorrow will bring.
Spent is the day among vitamins, pro-vitamins and anti-histaminics. I come back home. Time for the night pills: Viagra (you never know) and a new formula that someone brought from America, a formula against shyness. This combination was bound to success… And twenty milligrams of success is not that bad… Oh, well, I'll take some Valiums and get some sleep.
António Pocinho