Paul Virilio entrevistado em Paris por Luisa Futoransky, a propósito do lançamento do seu novo livro
A Bomba Informática

Interviwing Paul Virilio Courtesy of the AjoBlanco magazine - February of 1999

Paul Virilio interviwed in Paris by Luisa Futoransky, by the occasion of the release of his new book, The Informational Bomb

glossário/glossary

 

 

 

 

Paul Virilio, urbanista e filósofo francês, tem sido uma voz céptica no debate das novas tecnologias. Não sendo um conservador, no sentido de não aceitar o progresso, o que pretende é analisar o preço, o «acidente» que a inovação técnica traz, iludida por uma sociedade tecnocrata e positivista.
«Isto é drama. Arte é drama. Qualquer relação com arte é também relação com a morte. A criação apenas existe em relação á destruição. A criação está contrária à destruição. Não podemos dissociar o nascimento da morte, o bem do mal.»
A velocidade (ver dromologia) é a palavra chave do seu pensamento, a riqueza da pós-modernidade, o capital das sociedades modernas. A realidade não é mais definida em termos de espaço e tempo, mas num mundo virtual, onde a tecnologia permite o paradoxo de estar em todo o lado e não estar em parte nenhuma (ver picnolepsia). A perda do lugar/cidade/nação em favor da globalidade, implica a perda do exercício do direito, da democracia que é contrária à imediatez e instantaniedade da informação. A aldeia global de McLuhan é um «gueto mundial».

 

Biografia
Paul Virilio nasceu em Paris em 1932. Estudou arquitectura em Paris, em 1963 tornou-se presidente e editor da revista do grupo "Architecture Principe". Até 1968 foi professor de arquitectura na École Speciale de Architecture, tendo-se tornado director de estudos em 1973. No mesmo ano, foi nomeado director da colecção "L'Espace Critique" editada pela Galilee de Paris. Em 1975 foi director geral da École Speciale de Architecture e em 1989 Presidente da Comissão. Em 1975, co-organizou a exposição Bunker Archeologie no Museu de Artes Decorativas em Paris.1987 - Grande Prémio Nacional da Crítica Arquitectónica. Em 1989 director de um programa de estudos no College International de Philosophie de Paris sob a direcção de Jacques Derrida. Em 1992, membro de High Commitee for the Housing of the Disadvantaged. Entre outros projectos em curso, trabalha sobre técnicas metropolitanas de organizar tempo e a construção do primeiro Museu do Acidente, que será inaugurado em 2000 no Japão.

 

 

Paul Virilio, the French urbanist and philosopher, has been a sceptic voice in the debate about new technologies. Being not a conservative, in the sense of not accepting progress, what he pretends is the analysis of the price, the «accident» that technical advances bring, in the illusion of a technocrat and positiviste society. «This is drama. Art is drama. Any relationship to art is also a relationship to death. Creation exists only in regard to destruction. Creation is against destruction. You cannot dissociate birth from death, creation from destruction, good from evil.» Velocity (see dromology) is the key word of his thinking, the post-modernity treasure, and the modern society capital. Reality is no longer defined by time and space, but in a virtual world, in which technology allows the existence of the paradox of being everywhere at the same time and being nowhere at all (see picnolepsia).The loss of the site/city/nation in favour of globalisation implies also the loss of rights and of democracy that is contrary to the immediate and instantaneous nature of information. McLuhan's global village is nothing but a «World Ghetto».

 

Biography
Paul Virilio was born in Paris in 1932. He studied architecture in Paris, and in 1963 he became the president and the editor of the "Architecture Principe" group's magazine. He was teacher at the École Speciale de Architecture until 1968, becoming Director of Studies in 1973. At that same year, he became the director of the magazine "L'Espace Critique", published by Galilee, from paris. In 1975 he was the General Director of the ÉSA and in 1989 Chairman of the Board. In 1975 he co-organised the Bunker Archeologie exhibition at the Decorative Arts Museum of Paris. 1987: Grand National Prize for Architecture Critique. 1989: director of the program of studies at the College International de Philosophie de Paris, under the direction of jacques Derrida. In 1992, he became a member of the High Committee for the Housing of the Disadvantaged. Among other projects, he is presently working on metropolitan techniques of time organisation and the building of the first Museum of the Accident, to be opened in 2000, in Japan.

- Comecemos pelo início, a sua biografia...
- Sou de 32. Um verdadeiro menino da guerra, um war-baby. Com o meu pai, um comunista italiano que tinha residência mas não a cidadania francesa, e a minha mãe, de origem bretã (Bretanha), afincámo-nos em Nantes. Em 1940 vivi a chegada relâmpago dos alemães avançando para a costa, mas o mais terrível aconteceu a 16 e a 23 de Setembro de 43. Os aliados bombardearam. 8000 edifícios destruídos, bairros incendiados. A cidade arrasada. A partir de então, aos 11 anos de idade, fiz-me relativista. A guerra revelou-me a fragilidade das aparências. Para um menino, a cidade é indestrutível, e eu fui um rapaz que viu a sua cidade arder e derrubar, como Nero viu as ruínas de Roma. A guerra fez-me compreender que a potência da destruição é totalitária e põe em causa a realidade. Não acreditei mais nos meus olhos, tudo era falso, pura bijuteria. Potência destrutiva que começa em Coventry ou Guernica e acaba em Hiroshima, passando por Auschwitz e os massacres nos campos. Na minha opinião, Auschwitz e Hiroshima estão de mãos dadas e situam-se no mesmo plano histórico. É claro que uma bomba que põe fim a uma guerra não é comparável ao genocídio. Não obstante, Hiroshima inicia uma era de tecnologia militar que pode destruir tudo.

- Imagino que com a Libertação chegou a paz para o war-baby, pelo menos no sentido literal. Que se passou?
- A primeira coisa, ver o mar, pois ainda que estivéssemos muito perto, não podíamos lá chegar, sendo zona proibida. Descobri que nas praias havia bunkers, que eram como enigmas, espécie de estátuas da Ilha da Páscoa que interrogam ao horizonte marítimo, moscas de um espaço totalitário. A cidade e a guerra, a destruição pela técnica, encontram-se no início da minha vida. Quando a paz chega já não sou um rapaz mas um adulto, porque vi coisas monstruosas, cabeças cortadas... A partir de aí impõe-se optar por uma filosofia. A maioria dos meus amigos escolhe o marxismo, mas como o meu pai era comunista, procurei outra solução... e converti-me…

- A quê?
- Ao cristianismo. Pus-me a ler a Bíblia como outros lêem O Capital.

- Continua com uma e com o outro?
- Sou um homem de esquerdas. Melhor dito, sou um comuneiro, mas a partir dos 18 sou um cristão adulto e convencido. A leitura da Biblia converteu-me. Foi em 1949. Disseram-me que existia um padre operário que trabalhava na fábrica da Renault e vivia numas águas furtadas em Saint Denis. Visitei-o, começámos a discutir e finalmente foi ele quem me baptizou.

É a época Montparnasse de Virilio. Dedica-se à pintura e a viver de pintar cartazes de cinema: "paredes de quatro por doze", esclarece. Irónica ambiguidade: viver de fazer anúncios para as salas de cinema alguém que muito cedo se oporá com energia nas fileiras da luta contra a "poluição do nosso campo visual". Graças à sua experiência, começa a perceber o "que se esconde detrás da propaganda; o grande bluff e a violação das consciências". Mas a sua formação profissional é a de mestre vidreiro, actividade que lhe proporciona a oportunidade de trabalhar com dois dos pintores mais importantes deste século, também eles vitralistas: Matisse e Braque.

- A pouco e pouco fui-me integrando no meio da arte sacra. Paralelamente, com a esperança de compreender o fenómeno da guerra total, durante dez anos realizei com uma Leica um detalhado inventário fotográfico, único, sobre os bunkers. O resultado foi o meu primeiro livro, O Bunker Arqueológico, de 1975. Ao mesmo tempo assisti a cursos de Vladimir Jankélévitchk e Raymond Aaron, e leio fascinado Merlau-Ponty e a sua fenomenologia da percepção. Nessa época também descubro Victor Segalen, a sua homenagem às estelas e à grande estatuária chinesa, e vejo que temos procuras parecidas: Segalen, um tipo que passeia pelos campos chineses fotografando budas e ruínas abandonadas, e eu, que percorro a pé as praias do Atlântico fazendo praticamente a mesma coisa.

- Mas uma coisa é um poeta falar de remotas estelas funerárias, um escriba autodidacta sobre as fortificações e outra você a construir uma catedral, a única deste século em França.
- É certo. Nesse período ganhei, com Claude Parent, o concurso para construir a catedral de Nevers, considerada hoje como monumento histórico. O projecto partia desse monstro, o bunker, mito da dissuação da guerra e refúgio atómico dos anos 60 e 70. Mas eu cristianizo essa forma aterradora. Também na Alemanha os refúgios antiaéreos foram convertendo-se em hospitais, depósitos de legumes, igrejas. Assim, a minha blockhouse, a minha catedral inspirada em tudo isto, mas também na gruta de Lourdes, será uma forma de cimento sombrio e inquietante, que de resto encontrou uma grande oposição.

- Dentro da própria Igreja?
- Dentro e à volta de. Vou-lhe contar uma anedota. Enquanto se realizava a liturgia de consagração da Catedral, o bispo não parava de repetir "mas que horror, que horror!". Então o padre da igreja pôs-se à frente dele, dizendo: "Monsenhor, o que está a realizar não é um exorcismo, mas uma consagração do que irá ser a minha igreja, e eu não posso tolerar isso".

Com a chegada do Maio de 68, Virilio junta-se à histórica ocupação do teatro do Odeón, reúne-se com os estudantes e daí surge a ideia de fundar a Escola Especial de Arquitectura, da qual conservará até Dezembro de 97 os cargos de maior responsabilidade. Virilio aclara que esta "é a única escola de arquitectura privada da França". Devido aos seus estreitos vínculos com a arquitectura, define-se de "urbanista". O seu último livro, A bomba informática, recém-publicado em França, traz o ir e vir do urbanista polivalente e amiúde exaltado, empenhado em traduzir o mundo e as suas máquinas, motores e écrans, em alertar a quem o quiser ouvir acerca dos riscos de um acidente total provocado pelas novas tecnologias, nas que a velocidade já exerce, de modo decisivo, o papel do controlador social e político.

- Você afirma que o mundo actual é um sistema interactivo capaz de desencadear catastróficas reações em cadeia. Em suma, estamos na margem da ciberbomba...
- Inspirei-me numa frase que Einstein disse no fim dos anos 50, pouco antes de morrer. Uma frase rotunda e meridiana. Existem três bombas, disse, no devir do ser humano: a atómica -que acaba de explodir -, a da informação - ainda não existia então a informática - e a demográfica. A ideia marcou-me profundamente. Pelo meu trabalho acerca da velocidade, estou consciente de que a interactividade é para a informação o que a radioactividade é para a energia: uma potência colossal. A bomba atómica de ontem e a genética do amanhã não são concebíveis sem a bomba informática. Depois da bomba atómica, susceptível de desintegrar a matéria pela energia da radioactividade, surge neste fim de milénio o espectro de uma segunda bomba, a informática, capaz de desintegrar a paz das nações pela interactividade da informática. Porque não é a informação a ameaça, mas a instantaneidade e a imediatez, uma interactividade que se dá nos dias de hoje a nível mundial e em que existe um efeito de feedback, cibernético, absolutamente temível.

- Pode mencionar algum fenómeno particular em que se possa observar este efeito?
- Os cracks das várias bolsas que circulam pelo mundo nestes tempos estão vinculados àquilo que denomino de risco sistémico, quer dizer, ao conjunto de riscos cibernéticos: um mercado empurra o outro na sua queda até depararmo-nos de frente com a grande catástrofe, perante o acidente integral. A imediatez das quotizações automáticas favorece o crack instantâneo à escala mundial. Agora percebo os pressentimentos do futurista Marinetti: a velocidade é a violência em todos os âmbitos. Seria preciso uma economia política da velocidade, ou da dromologia, uma disciplina cujo interesse são os estragos ocasionados pela velocidade.

- Podemos considerá-lo um crítico severo da técnica?
- Não estou contra a técnica. Não sou um ecologista. Não preconizo a volta do carrinho de mão ou que batamos as mãos em lugar de falar pelo telefone. Mas acho que não devemos idealizar, nem mitificar os objectos técnicos. Quando chegaram os comboios, disseram-nos que com ele viria a democracia universal, mas na Europa o que aconteceu foi a 1ª Guerra Mundial, pois os alemães aproximaram as suas tropas de comboio. Os anglo-saxões e os franceses utilizaram camiões e deram mais um passo em frente na destruição. Na Segunda Guerra avançava-se a golpe de rádio e telefone. Hitler grita e De Gaulle reenvia-lhe o objecto com o programa de rádio "Os franceses falam aos franceses". Quando um objecto aparece, imediatamente utiliza-se-lo de modo tirânico, para fazer o mal, e há que o combater. Lutar novamente como Jacob lutou contra o anjo.

- Milenarismo obriga. Será que a acusação de Cassandra e de profeta da catástrofe não o aborrece muito? Na minha terra dizem que de poeta e louco todos temos um pouco.
- Para mim não há assim tanta diferença. Os grandes poetas são também profetas. Neste sentido, Kafka é um profeta, sendo um dos maiores escritores contemporâneos, no meu ver o maior. Anunciou Dachau e antecipou o século XX com grande agudeza.

- Mais do que Benjamin, Beckett e outros tantos?
- Kafka foi o primeiro. Tem uma responsabilidade profética extraordinária em relação ao povo judaico, a constituição da Europa e de tudo o que agora acontece. Admiro também Karl Kraus, que à poesia soma a visão, e a Holderlin, outro profeta. São criadores muito diferentes, que me inspiram e os quais respeito.

- O século começou com grandes louvores à Fada electricidade. Não poderemos começar o próximo louvando a Fada informática? Porquê começar chamando-a de bruxa de todos os demónios? Porquê exceder na tremendologia, com um cheirinho de arrepio apocalíptico?
- Chernobyl produz-se pela electricidade. O nosso século é o dos grandes acidentes: o Titanic e Chernobyl.

- Você analisou também os males que sofrem as nossas democracias...
- Sim, as democracias estão muito ameaçadas. Em França, pela extrema direita do Front Nacional e pelos tiranos e as mafias. Mas na generalidade, as democracias estão ameaçadas pela técnica, pelo aceleramento da informação. A grande ameaça da Internet para a democracia é a sua aparência de ideia: uma espécie de megacérebro onde todo o mundo está conectado com todo o mundo e onde é suficiente formular uma pergunta para ter uma resposta. Essa é a negação da democracia representativa no benefício de uma democracia virtual ou automática. As tecnologias da interactividade conduzem-nos a uma democracia cibernética que, deixando de ser representativa, se torna presentativa, de demonstrativa se torna mostrativa, quer dizer alucinante, como os media. Basta olhar as campanhas humanitárias para imaginar o que pode ser uma democracia que se lhes aparente. A meu ver, a democracia é o tempo de reflexão em comum e não o reflexo condicionado das sondagens de opinião.

- Como e com que elementos fazer face a estes condicionamentos?
- Acaba de formular uma pergunta chave. A grande imagem para lhe responder provêm da Bíblia. Refiro-me ao combate entre Jacob e o anjo. Porque Abraham, Isaac e Moisés são os inventores, entre aspas, do Deus único, do monoteísmo, mas Jacob é quem encontrará o que ama e sonha, o seu deus, à imagem do seu deus, e combaterá com ele não para a morte mas para a vida. Permanecerá em pé à sua frente toda a noite Trata-se da anti-idolatria. Jacob ama através do facto de permanecer em pé. Ao contrário de tudo o que acontece hoje em dia: idolatra-se o deus máquina, e as pessoas ajoelham-se perante o deus ex machina construído pelas nossas mãos. Essas novas técnicas publicitam-se com milhões. Bill Gates dispõe de milhões de dólares para a publicidade catódica. O meu pape) não é o de Cassandra, mas o de alguém que resiste à publicidade global. Porque pode ser-se resistente perante duas coisas: perante a ocupação, como durante a guerra - hoje em dia os media simbolizam a ocupação -, e perante a aceleração da informação e a interactividade, que ameaçam as liberdades e a democracia. Este é o meu papel: construir uma linha de resistência de inteligências, através das minhas análises da técnica e os meios e o meu conhecimento da guerra. Num mundo que se divide entre colaboracionistas e resistentes, defino-me como resistente.

- Pode resistir-se à Dolly, cuja reprodução não passa já pela sexualidade?
- Abusamos da simbologia do cordeiro. Toda essa tentativa de decifrar a carta do genoma humano e fabricar quimeras, não só clones, está vinculada à potência da informação, à decifração do ADN, que programa a vida. Isto não se pode conceber sem o poder de cálculo do computador. Sem ele, não se poderia ler o genoma humano. Recordando a fábula de Esopo acerca da língua, diria que o computador é a melhor e a pior das coisas. Quem será o próximo filho de Mengele? Um inglês ou um norte-americano? O novo eugenismo assenta na nova genética, na biotecnologia e na potência de decifração dos computadores. A ameaça actual não provém somente do fascismo que quer constantemente reaparecer, mas também da loucura de uma ciência que pretende tornar-se divindade e da qual o computador é a sua ferramenta e arma. Neste sentido é uma bomba, que irá não explodir mas implodir, que irá destruir os saberes, o respeito pela vida, a justiça,...

- Você, como qualquer profeta, é mais conhecido fora das fronteiras da sua língua. Faz muitas viagens? Vai á procura do seu leitor?
- Existem poucos críticos da técnica. Há Jacques Elul, que morreu; Ricardo Petrella e Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique. É certo que estou um pouco sozinho na minha crítica, mas com o leitor não tenho problemas. Não viajo muito, mas traduzem-me bastante.

- Da tradução a Babel, outro dos seus temas preferidos, há um só passo...
- Babel também nos conduz à arquitectura, e se bem que não sou arquitecto de formação, considero-me urbanista, um homem da cidade. Babel é para mim um conjunto, como a Arca de Noé, um dos grandes mitos do mundo moderno. A cidade é a forma maior da história e impõe-se como forma política superior. Não só dá o nome à política mas também à sua figura. Babel é sem dúvida a imagem da megalópolis que não pode ultrapassar-se, a prefiguração da capital. No passado, tivemos a Cidade-Estado, com Atenas e Esparta. Depois tivemos o Estado-Nação, com as suas respectivas capitais provincianas e uma capital nacional. Depois da Segunda Guerra Mundial, apareceram as megalópolis como Calcutá, México, São Paulo, Tóquio, Cairo e Pequim. Mas Babel é o programa de todas. É a cidade que irá assumir a totalidade da política através de uma língua única e de consenso. Maravilha de esperança, mas também maravilha de horror! Os políticos de hoje não estão à altura da técnica, do potencial tecno-científico e da mundialização. O verdadeiro poder têm-no os verdadeiros senhores feudais do mercado: os Gates, os Murdock e os Soros.
Dou-lhe duas novidades. A ONU prepara o UNL, o Universal Network Language, quer dizer, um superesperanto. Uma só lingua. Será formidável. Todos poderemos perceber-nos e ao mesmo tempo será a confusão das diversidades. Estamos perante terríveis paradoxos. A segunda novidade é que a Swatch tinha previsto lançar no dia 1 de Janeiro um relógio cuja unidade é o beat, que equivalará a 84,6 segundos e irá substituir as horas, minutos e segundos e dias por uma hora abstracta. O meridiano do tempo será a oficina do patrão da Swatch. Uma lingua única e um patrão do tempo sem qualquer referência cosmogónica. Estamos mesmo dentro de Babel. Não lhe parece?

- Let's s art at the beginning, your biography…
- I'm form 32. A real war baby. My father, an Italian communist that was resident in France, but not a French citizen, my mother, from Bretaigne, and myself, moved to Nantes. In 1940 I assisted the swift arrival of the German troops along the shores. But the worst was yet to come. And, on the 16th and the 23th of September of 1943, the Allies started the bombings. 8000 buildings crumbled to ashes, whole quarters on fire, the city devastated. Since then, I was 11, I become relativist. War made me understand the fragility of appearances. For a child, the city is indestructible, and I was a child that had seen his city turned to ashes, just like Nero had seen Rome on fire. War made me understand that destruction's power is totalitarian and it questions reality itself. I wouldn't believe my eyes anymore, everything became a fake to me. A destructive power that can begin in Coventry, or in Guernica, and that it ends in Hiroshima, but doesn't forget Auschwitz and field massacres. In my opinion, Auschwitz and Hiroshima are twin towns in the same historical plane. I know that a bomb that ends a war is no comparable to genocide, nevertheless Hiroshima is the beginning of a new military technological era that is able to destroy everything.

- I figure that the Liberation brought some peace to the war baby, at least literally. What happened then?
- The first thing, seeing the ocean, because despite living close we couldn't walk down there, being a forbidden area. I found out that there were bunkers at the beaches, and they stood like riddles, Easter Island statues of some kind, flies of a totalitarian space. The city and the war, the destruction through techniques, stand at the beginning of my life. When peace comes, I am no longer a child but an adult, because I'd seen too many monstrous things, severed heads… From then on, it's imperative a philosophical option. Most of my friends became Marxists, but my father was a Communist, so I sought a different solution…I was converted…

- To what?
- Christianity. I began reading the Bible as others read The Capital.

- Do you still linger to both?
- I am a man of the lefts. Better put, I am a communal, but since my 18teens I'm an adult and convinced Christian. The reading of the Bible converted me. It was in 1949. Someone told me there was this priest that worked at the Renault plant, a proletarian, and that lived at some small attic at Saint Denis. I went to see him, we discussed things out and, finally, he was the one who baptised me.

This is Virilio's Montparnasse period. He dedicates himself to painting, and lives from making movie canvas ads: "four by twelve meters walls", he corrects. Ironical ambiguity this life, someone making ads for theatres, someone who was since early times in the most felt opposition against «the pollution of our visual fields». Thamks to his experience, he starts to realise «what's behind propaganda, the great bluff and the consciences violations». But his professional formation his of a glass-shaper, an activity that held him the opportunity to work with two of the most important painters of this century, also glass-makers themselves: Matisse and Braque.

- Little by little, I was penetrating the sacred art milieu. At the some time, I was hoping to understand the total war phenomenon, and I used for ten years a Leica camera, making a highly detailed photographic inventory, rather unique, on the bunkers. The result was my first book, from 1975, The Archaeological Bunker. And I also went to Vladimir Jankélévitchk's and Raymond Aaron's courses, I read in absolute fascination Merlau-Ponty's books and all his perception phenomenology. During that period, I also discovered Victor Segalen, his homage to the Chinese statuary and steles. I realise that both of us have similar quests: Segalen, looking for abandoned Budas and ruins among Chinese fields, and me, walking through Atlantic beaches, doing practically the same thing.

- But one thing is a poet descant about faraway funerary steles, another is a self-made scribe of fortifications, and another still is you building the only cathedral made in France in this century.
- That's right. In that time I, along with Claude Parent, won the concourse for the construction of the Nevers Cathedral, that is today regarded as a historical monument. The project departed from that monster that the bunker is, a myth of the dissuasion of war and a refuge during the 60's and the 70's. But what I'm doing is christianise that terrifying shape. In Germany, the anti-aerial refuges were transformed into hospitals, vegetable depos, and churches. Thus my blockhouse, my cathedral based on all this, but this is something that happens also at the lourdes cave, a shadowy and restless cement shape, that actually had a great opposition.

- Inside the Church itself?
- Inside, around and beyond. Let me tell you an anecdote: while the liturgical cerimony wa being held, the consecration of the Cathedral, the bishop just couldn't stop saying »This is horrible1 Horrible!» So the church's priest stood in front of the bishop and said: «Monsignor, you are not in an exorcism, but in a consecration of what shall become my church, and I cannot tolerate that».

With May of 68, Virilio joins the historical occupation of the Odeón theatre, he gathers the students and an idea is brought up: the creation of the Special School of Architecture, of which Virilio will be the most responsible member until December, 1997. He says that «this is the only private architecture school of all France». Due to his close relationship with architecture, he defines himself as an «urbanist», His last book, The Informational Bomb, recently published in France, focuses the life of the multifaceted and sometimes quite hot-headed urbanist, and his mission of translating the world and its machines, motors and screens, alerting everyone that is willing to listen of the risks of a total accident that can be triggered by the new technologies, the ones in which velocity already has a decisive role, the political and social controller role.

- You say that the world today, as we know it, is an interactive system capable of provoking catastrophic chain reactions. In a word, we're too close of the cyberbomb…
- I was inspired by a sentence that Einstein spoke in the late 50's, some time before dying. An meridian and whole-contemplating phrase. There are three bombs, he said, at man's time to come: the atom bomb - that as just exploded - ; the information one - remember there were no informatics back then - and the demographic one. This idea marked me for good. Due to my research about velocity, I'm conscious about the fact that interactivity is related to information as radioactivity to energy: both are colossal potencies. Yester's atom bomb and tomorrow's genetic bomb are not thinkable without the informational one. After the atomic bomb, that can disintegrate matter through radioactivity's energy, so can this second bomb, the information's, at the end of our millennium, disintegrate nations' world-wide peace through informatics' interactivity. It is not information the threat, but rather its instantaneous and immediacy possibilities; an interactivity that is seen in our days at a global level, that produces a feedback effect, cybernetic and absolutely terrifying.

- Can you mention any precise phenomenon in which we can perceive such an effect?
- The several cracks at Stock Markets that travel around the globe are related to what I call systemic risk, that is, the set of cybernetic risks: a market pushes the other down on its fall until we come before the great catastrophe, before the complete accident. The immediacy of automatic quotations helps out the instantaneous global scale crack. Now I understand Futurist Marinetti's premonitions about velocity as a violence felt in all fields. It would be necessary political economics of velocity, dromology, a subject whose interests are the damages provoked by velocity.

- Can we consider you a severe critic of technology?
- I am not against technology. I'm not an ecologist. I'm not defending the return of the wheelbarrow or think that we should clap our hands instead of using the phone. But I think we should not idealise or turn into myths the technological objects. When the trains were being used for the first time, they said that an universal democracy would be shaped by it, but what actually happened was World War I, with the German troops getting nearer by train. Anglo-Saxons and French used trucks and with them, a new step towards destruction was performed. In WWII, you would march onward with radio and phone blows. Hitler screamed and De Gaulle screamed back with the radio program "The French talk to the French". When an object is made, it's always subverted into a tyrannical use, to do evil, and you have to fight it. Fighting again like Jacob fought the Lord's angel.

- Milleniarism oblige. Does your accusation as a Cassandra or as a catastrophic prophet bother you? Back where I'm come from it is said, «of poets and madmen, we all share a bit».
- For me, there's no such difference. Great poets are also prophets. In that sense, Kafka is a prophet, being one of the greatest writers of the XX century, in my opinion, the greatest. He warned us of Dachau and anticipated the XX century with great accuracy.

- More than Benjamin, Beckett or many others?
- Kafka was the first. He has an extraordinary prophetic responsibility in relation to the Jews, the constitution of Europe and everything that's happening right now. I'm also a grand admirer of Karl Kraus, that adds poetry to vision, and Holderlin, another prophet. These are different creators, people I'm inspired by and that I respect.

- This century began with high praise to Fairy Electricity. Can we begin the next by praising Fairy Informatics? Why call her Witch of all Demons? Why the excess of fearlogy, a taste of apocalyptic shivers?
- Chernobyl is produced by electricity. Our century is the century of huge accidents: the Titanic and Chernobyl.

- You also analysed the wrongs of our democracies…
- Yes, democracies are being threatened. In France, by extreme right-wing parties like Front national and by tyrants and mobs. But, generally speaking, democracies are being threatened by technology, by the speeding up of information. The great internet threat against democracy is its idea look-likeness: a megabrain of sorts in which the whole world in connected with the whole world and in which you just have to think of a question to get the right answer. This is the negation of representative democracy, on the benefit of a virtual or automatic democracy. Interactivity technologies leads us to cybernetic democracies that are no longer representative, but "presentative", no longer explanatory but a simple display. That is, hallucinatory, just like the media.
Just look at the humanitarian campaigns, and think how a democracy could be like them. At my regard, democracy is a time of common reflection and not the conditioned reflex of opinion surveys.

- How and with which elements can we fight these conditioners?
- You just made the key-question. The better image to answer such a question is from the bible. I'm thinking of the fight between Jacob and the angel. Abraham, Isaac and Moses are, let us say, the shapers of the One God, of monotheism, but Jacob is the one who will meet the loving, dreaming one, his own god, shaped as the image of god, and he will fight him not to death but to life. He will remain standing all night facing him. That's in contrary signal to everything that is made today: we adulate the god machine, we bow in our knees before the deus ex machina that was built with our own very hands. These new technologies are publicised by millions. Bill gates has millions of dollars just for cathodic publicity. My role is not of a Cassandra, but of someone who is resistant to global publicity. It's possible to be resistant in relation to two things: the occupation, during the war - nowadays the media are the occupation forces - , and before the information and interactivity acceleration that are threatening democracies and freedoms. This is my role: build a intelligence resistance line, through my analysis of technologies, of media, and my war techniques knowledge. In a world divided between being collaborationist and resistant, I am the latter.

- Can we resist Dolly, whose reproduction can do without sexuality?
- We use too much the lamb symbol. All those efforts in reading the human genoma and construct chimeras, not only clones, is linked to the information potency, to the DNA deciphering, that programs life. You cannot think of this without the computer's calculus. Without it, we couldn't think of reading the human genoma. Remembering Aesop's fable about language, I would say the computer is the best and the worst of things. Who will be next Mengele's son? An English or a North American? The new eugenics is based on new genetics, biotechnology and the potency of computer deciphering. Today's threat doesn't come only from fascism, that doesn't cease its return trials, but also from the madness of a science that wants to become divine, to which the computer is the main tool and weapon. In this sense it's a bomb, that won't explode but implode, destroying the knowledges, the respect for life, for justice…

- You, as any prophet, are more known outside the borders of your own language. Do you travel often? Do you seeks your readers?
- There are few critics of technology. There's Jacques Elul, who's dead, Ricardo Petrella and Ignacio Ramonet, from Le Monde Diplomatique. It is certain that I'm a little lonely in my critique, but I do not have any problems with the reader. I don't travel a lot, but I'm translated very often.

- From translations to Babel, another of your favourite themes, it's a small step…
- Babel also leads us to architecture, and even if I am not a professional architect, I consider myself an urbanist, a man of the city. Babel is, for me, a grouping, like Noah's Ark, one of the greatest myths of modern world. The city is the greatest shape of man's history and it imposes itself as a superior political form. It doesn't just give its name to politics (from polis), but it lends ii its own shape. Babel is undoubtedly the image of the megalopolis that cannot surpass itself, the pre-image of the capital. In the past, there were the City-States, like Sparta or Athens. Then, the States-Nations, with its countryside capitals and its national capital. After World War II, megalopolis showed up such as Calcutta, Mexico, São Paulo, Tokyo, Cairo, and Peking. But Babel is the lying program to them all. It's the city that will assume the totality of politics through an unified, consensual, single language. Hopeful wonders, but also terrifying! Politicians today are not ready for the surrounding technologies, the techno-scientific potential and globalisation. The feudalism-like lords of the Markets hold the real power: the Gates, the Murdock and the Soros.
Let me tell you about two piece of news: UNO is getting ready the UNL, Universal Network Language, that is, a superesperanto. One language only. It will be great. We will all understand each other and at the same time it will be the diversities confusion. We are facing terrible paradoxes. The second thing is that Swatch had thought of releasing January the 1st a watch whose unity is the beat, that is equivalent to 84,6 seconds, and is something that will substitute the seconds, the minutes, the hours and even the days by an abstract hour. The time meridian will be the Swatch's boss office. A single language and a time pattern with no cosmogonical reference. We're really deep within Babel. Don't you think?