['pfemf]:
o som dos objectos
por/by Gonçalo Falcão
O homem vive e sempre viveu num mundo visual. A visão domina a experiência sensorial humana do mundo. Tudo o que apreendemos por meio dos outros sentidos tem uma influência menos determinante. Metade da capacidade do nosso cérebro é usada no processamento das impressões visuais.
Contudo, o som é um dos meios mais importantes de que dispomos para transmitir informação e adicionar-lhe nuances expressivas, como por exemplo o tom da voz. O som adiciona música à vida.
O som pode ainda conter uma experiência planeada sem qualquer mensagem: a música, uma linguagem que se significa a si mesma, contrariamente à linguagem da fala. A música é uma linguagem não-verbal compreendida por todos. Não necessariamente da mesma maneira. De formas diferenciadas e a diferentes níveis, mas sempre com o som como meio.
O ouvido não favorece a existência de um «ponto de vista». Somos envolvidos pelo som. Ouvimos sons em todo o lado sem a necessidade de os focarmos. Vêm de todas as direcções e não os podemos desligar. Talvez por não termos pálpebras nos ouvidos a música pode interferir connosco de uma forma muito mais visceral. O mundo da audição é um envelope de relações simultâneas, enquanto que o mundo da visão é sequencial.
O som é uma das dimensões principais dos edifícios, estudada pelos arquitectos desde há milénios. O anfiteatro não só cumpre funções visuais - distâncias e linhas de visão - mas também suporta a imagem sonora e a transmissão do som. A igreja tem um perfil acústico completamente diferente. O cantochão foi escrito para este espaço acústico e soa melhor nele. Pela mesma razão, a música de câmara foi escrita para um espaço privado e soa descontextualizada num ambiente muito reverberativo.
As ferramentas são extensões humanas e chamam a atenção dos potenciais utentes para as possibilidades do seu uso bem como do seu grau de importância e da consistência do seu grupo de utilizadores. Assim, só pelo simples facto de existirem e de terem sido destinados a alguma função, os objectos informam sobre as tarefas inerentes à cultura da sociedade onde são produzidos.
A maior parte das ferramentas produz som simplesmente pela execução das funções para que foram destinadas: o batente da porta de um carro ou o clique de um interruptor. Estes sons são uma necessidade mecânica. Não são um elemento planeado do produto. No entanto não são ruído. Ruído é o som indesejado. Por definição o som é a variação da pressão que pode ser apreendida pelo ouvido humano. É ainda possível medir sons fora do alcance da nossa percepção - ultra e infra.
O ouvido humano está continuamente a perder a sua capacidade de recepção. O aumento do nível do volume geral provocou um aumento do grau mínimo do estímulo acústico e/ou o aumento e acumulação de sons requer a «anestesia» do sentido da audição de forma a poder enfrentar descargas acústicas permanentes. Um dos dados históricos que tenho maior dificuldade em reconstruir é a acuidade auditiva de quem viveu num mundo cujo volume geral era significativamente inferior ao actual.
Ouvir não significa só a detecção de variações do volume de som, permite também experimentar a origem e a sua distribuição no espaço. Isto deve-se ao facto de termos dois ouvidos e porque o som chega até eles com diferentes tempos e intensidades. O som é uma sensação, e portanto sofre variações de acordo com gostos pessoais. O ouvido treina-se e educa-se.
Tal como a forma, a cor, a escolha dos materiais e a superfície, o som é uma dimensão do design. Porque é parte determinante da maneira como experimentamos um produto ou comunicação, o som tem que fazer parte do projecto do produto ou comunicação. No entanto, é raro os designers de produto ou de comunicação trabalharem directamente e conscientemente com o design do som. O som raramente é abordado nas escolas superiores de design e a bagagem auditiva dos alunos é, não raras vezes, vulgar.
A formação auditiva de um designer é um elemento estrutural da sua capacidade prática. Esta formação é dois tipos: por um lado técnica, ligada ao estudo da acústica e das propriedades sonoras; por outro lado cultural, de apreciação dos sons e da música. No entanto, a História da Música nem sequer faz parte dos programas de História da Arte.
O som de um produto contém informação importante sobre a sua qualidade e estado, e pode por si só ser um elemento de prazer ou desconforto para o utente e para outros. A teoria que diz que a função de um produto é crucial para a determinação da sua forma deve ser considerada uma ideologia, portanto guerrilheira (do funcionalismo e do racionalismo), porque a forma de um produto diz respeito a todas as suas funções, incluindo aquelas que não têm nada que ver com a função do objecto enquanto ferramenta.
O pulsar grave de uma Harley-Davidson contribui para a personalidade da mota. Os técnicos cultivaram este som ao longo de anos e o fabricante patenteou-o numa série de países como parte do produto. A indústria automóvel foi a primeira a aperceber-se do potencial do som, e os fabricantes japoneses dedicaram uma atenção especial até conseguirem que as portas dos seus carros batessem como a de um Mercedes.
A Volkswagen exibiu num anúncio de 1998, a preto sobre uma página branca, a inscrição ['pfemf]. Este é o som da porta de um Passat a bater e fala-nos imediatamente de precisão, credibilidade e qualidade. A BRAUN fabrica secadores de cabelo e máquinas de barbear. A companhia tentou tornar os secadores mais silenciosos para aumentar a ideia do seu valor. No entanto, a BRAUN não fez qualquer tentativa de silenciar as máquinas de barbear. De acordo com a companhia, os clientes não ficavam convencidos que a máquina barbeasse. A IBM tinha já cometido o erro de investigar para abolir o ruído operacional das máquinas de escrever. O objectivo era o de reduzir o barulho dos escritórios e contribuir para um ambiente de trabalho mais amigável. O modelo 6750 foi lançado nos anos 70 e os utilizadores não gostaram; nunca sabiam se a máquina estava a trabalhar ou não, por isso a companhia introduziu discos eléctricos Piezo para reproduzir o barulho funcional. Este foi o primeiro produto que continha som artificial para reproduzir aquele que tinha sido laboriosamente eliminado.
Nalguns produtos, como gravadores de som digitais ou câmaras de vídeo, o barulho operacional tem que estar o mais próximo possível do inexistente para não interferir com o som gravado.
O reconhecimento do som e da fala é uma das áreas fundamentais de investigação na «inteligência artificial». O aperfeiçoamento do som virtual é uma das linhas mestras da indústria de instrumentos musicais. A interacção entre o som e a imagem é um dado fundamental para a construção da realidade virtual e ainda nos reserva puzzles interessantíssimos como o chamado efeito McGurk (H. McGurk e J. MacDonald): se mostramos uma imagem de uma cara a dizer «ga-ga» acompanhada pelo som «ba-ba» ouvimos com os olhos fechados obviamente «ba-ba», mas com os olhos abertos «cha-cha», incapazes de nos abstraírmos do som, por muito que tentemos.
O som está não só nos ouvidos como nos olhos e deve ser incorporado pelos designers de comunicação e industriais.
O compositor do século XX vê a sua função de uma forma que contém muitas afinidades com a do designer: o seu objectivo é fazer alguma coisa (da mesma forma que um artesão profissional) tão bem quanto conseguir. Hindemith impôs a ideia da Gebrauchsmusik, da música utilitária, para usos específicos e situações particulares. É uma visão tão válida como a Romântica da composição como a sublimação da obra de arte, sendo um retorno a uma ideia anterior, presente desde a Idade Média até Beethoven, que assume o compositor como um membro útil à sociedade, em vez de uma personalidade excêntrica, distanciada dos seus contemporâneos.
O som e a música encerram dimensões e ideias que enriquecem o projecto e ajudam a ver mais longe e socorro-me de uma frase de Edgar Varèse para me justificar: «Há sempre uma incompreensão entre o compositor e a sua geração. A explicação habitual deste fenómeno é que o artista avança em relação à sua época, mas esta parece-me absurda. De facto o criador é, de uma maneira particular, o testemunho da sua época; então, é porque o público - pela sua disposição e experiência - está cinquenta anos atrasado que há este desacordo entre ele e o compositor.»
Jens Bernsen, Sound in Design. Dansk Design Center: København 1998.
Marshall McLuhan/Quentin Fiore, The Medium is the Message. Hardwired: San Francisco [1ª ed. 1967] 1996.
Dafeldecker/Fussenegger, Bogengänge [libretto]. Durian CD, 1995.
André Boucourechliev, Le langage musical. Fayard: s.l 1993.
Augusto Morello, discurso na BEDA Conference.[1997]
Odile Vivier, Varése. Solfèges/Seuil, s.l. 1973.
A.A.V.V., Contemporary Composers on Contemporary Music: Elliott Schwatz, Barney Childs and Jim Fox. Da Capo Press: New York 1998.['pfemf]: the sound of the objects
Man lives and has always lived in a visual world. Vision is the dominant human sensorial experience of the surrounding world. Everything grasped through other senses is much less determinative. Half our brain capacities are directed towards image impressions processing.
Nevertheless, sound is one of the most important means that we use for information transmission, as well as to guarantee more expressive tones, such as the voice's. Sound adds music to life.
Sound also includes in itself a planned experience that holds no message: music is a language that signifies itself, as opposite to speech. Music is a non-verbal language; everyone understands it: not necessarily in the same fashion; in different forms, different levels, but with sound as the means.
Hearing has no «point of view». We are surrounded by sound. Sounds come from everywhere around us, there is no need for focus. We can not turn them off; regarding there is no such thing as a "hear-lid". Maybe that's why we apprehend music in a more visceral way. The world of hearing is an envelope of simultaneous relations, and not sequential as the vision one.
Sound is one of the main dimensions of buildings, and architects for millennia have studied it. The amphitheatre, for instances, comprehends not only visual functions - distances, vision lines - but it also works as a support for the sounding image and the sound transmission. The church has a completely different acoustic profile. The plain chant was composed for this specific acoustic space and it's in it that it sounds the best. For the same reason, chamber music was written for intimate places: in a more reverberative one, it sounds oddly out of context.
Tools are human extensions, and they direct the attention of their potential users to the possibilities of its using as well as its degree of importance and the consistence of its users group. Therefore, due to the plain fact of their existence and their particular function, objects inform us about the inherent cultural tasks of the distinctive society in which they were made.
Most tools just make sounds at the basic execution of their specific task: the slamming of a car door, the click of a switch. These sounds are a mechanical necessity. It is not a planned aspect of the product. However, it's not noise. Noise is undesired sound.
By definition, sound is the pressure variation, which human hearing is sensitive to. But it is still possible to measure sounds that go beyond human perception: ultra and infra sounds.
Human hearing has been continuously loosing its reception capacities. The increasing of the general volume level augmented the minimum degree of the acoustic stimulus. And/or the augment and accumulation of sounds imply the «anaesthetisation» of the hearing sense, making possible, thus, the standing of constant acoustic discharges. One of the historical data I have more difficulty to deal with is the exact hearing accuracy degree of people who lived in a world whose general volume was notably inferior to ours'.
Hearing doesn't mean only to detect sound volume variations. It allows us to experience its origin and its space distribution, mainly due to the fact that we have two ears, and that sound reaches them in different times and intensities. Sound is a feeling, therefore it divers according to personal tastes. You can educate and discipline hearing.
Just as form, colour, and the choice of materials and surfaces, sound is one of the dimensions of design. Because sound is a very important part of the way we experience products or communication, it has to be part of the product or communication's project. Still, seldom are the designers of products and of communication that develop directly or consciously sound design. Sound is rarely a subject in design superior schools, and the hearing/sound culture of the students is, most of the time, ordinary.
The designer's hearing formation is a structural element of his working capacities. This formation can be technical, associated to acoustic and sound properties studies; but also cultural, towards the cognisance of sounds and music. But Music History is not even part of Art History programs…
A product's sound conveys information about its quality and present conditions. It can be an element of pleasure or disturbance for the user. The theory that says that an object's function is crucial for the determination of its form should be considered an ideology, therefore a guerrilla (of functionalism and rationalism): because an object's form is related to all of its functions, including the ones that have nothing to do with the object's function as a tool.
The low-pitched purr of a Harley-Davidson is part of the chopper's personality. Its technicians cultivated that sound for decades and its maker patented the sound, in several countries, as part of the product. Car industries were the first ones to realise the potential of sound, and Japanese car builders dedicated a very special care until they could manage their car doors' shutting sound just like a Mercedes Benz'.
Back in 1998, there was a Volkswagen's ad that had written on black letters over a white surface the word ['pfemf]. This is the sound of the Passat's doors shutting. And it immediately remembers us of precision, credibility and quality. BRAUN makes hairdryers and shavers. The company managed to make more silenced hairdryers, stressing their value. But they didn't try to do the same thing in relation to the shavers. According to BRAUN, clients were not sure if it shaved properly. IBM made the same mistake in the investigation towards the abolition of a typewriter's operational noise. The main goal was to reduce noise at the offices, making them more pleasant places to work in. The 6750 model was released in the 70's but the clients didn't like it; they didn't know whether the machine was working or not. So, IBM inserted Piezo electrical discs to reproduce that functional noise. This was the first product including artificial sound ever, a sound that imitated the one they took so long to eradicate.
In some products, such as video or digital sound recorders, operational noises have to be as close to non-existent as possible, in order to interfere not with the recorded sound.
The recognition of sound and speech is one of the most fundamental areas in the research of «artificial intelligence». The improvement of virtual sound is one of the main lines in music instruments industries. The interaction of sound and image is a basic issue for the construction of virtual realities, and it comprehends some extremely interesting brain twisting questions, such as the McGurk effect (H. McGurk and J. MacDonald): before an image of a face pronouncing «ga-ga», but with the recorded sound of «ba-ba», it's obvious that if you have your eyes closed you will hear «ba-ba», but if you're watching the image you'll hear «cha-cha». No matter how hard you try, you cannot be abstracted from the sound.
Sound is not only in our ears, it's also in our eyes and industrial and communication designers should comprise it.
The XX century composer regards his function in a very close relation to the designer's: his goal is to do something (just like a professional artisan) as good as he can. Hindemith came up with the Gebrauchsmusik concept, an utilitarian music, for specific usage and particular situations. This is an attitude as valid as the Romantics' idea of composition as the sublimation of the work of art, being no more than a return to a previous idea, that lingered since the Middle Ages to Beethoven, regarding the composer as an useful member of society, rather than an eccentric personality, distant from his contemporaries.
Sound and music hold dimensions and ideas that enrich the projects, that help a more penetrating vision. Allow me to quote Edgar Varèse, in order to defend this idea: «There is always a misunderstanding between the composer and his generation. The frequent explanation for this phenomenon is that the artist is too advanced for his epoch, but this seems an absurdity to me. In fact, the creator is, in an exceptional fashion, the testimony of his age; therefore, it is because the audiences - by its inclinations and experiences -are fifty years late that this disagreement with the composer is verified».