C R Ó N I C A

 

 

 

 

FÁBRICA DAS MENTIRAS
O PODER NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE

 

"A verdade não passa de uma mentira subtil"
Fernando Pessoa

Nos dias que escorrem e que corroem, os casos do jogo estão para o futebol assim como os casos de corrupção estão para a política.
Há falta de concretização no futebol português? Que importância é que isso tem? Em compensação, há árbitros corruptos, dirigentes devassos, massas associativas depravadas, penalties subornados, balizas putrefactas, jogadores danificados, passes falsificados e foras-de-jogo dissolutos (Ver Corrupção no Diccionário de Sinónimos).
Há falta de golos na política? Pessoas sem casa, sem bacalhau com batatas assadas a murro e sem medicamentos? Tudo bem! Sobra a maçonaria, a moderna e o SIS-tema. Finalmente em Portugal, à semelhança de países respeitáveis como os Estados Unidos, a conspiração regressou do futebol para a política, de onde tinha andado tristemente arredada. Salut.
Sobram agora os casos de corrupção. Não há mãos (limpas ou sujas) a medir. Parece (dizem, ou melhor, ouvi dizer) que até o poder é corrupto e que governantes, parlamentares e autarcas são dados a casos de desvio de bolas, luvas e equipamentos. Então mas não é para isso que eles são o poder? (Contrariamente àquilo que analistas, oralistas e opinianistas dizem, eles não estão no poder, eles são o poder). E o que é o poder? É o poder de estar acima da lei, de ter sempre mais e melhor, "agora e na hora da nossa sorte, amen". É o "venha a nós o vosso reino" do "poder nosso de cada dia nos dai hoje". É uma oração em que os sujeitos podem acrescentar ao seu poder o verbo que quiserem, excepto o verbo chover e outros verbos defectivos. Depois é só uma questão de combinatória ... e de escala. (Sim, porque mesmo entre os poderosos nem todos podem iniciar uma guerra, por exemplo). E como quase todos os verbos se podem conjugar com o verbo poder, imaginem o que é que alguns sujeitos se podem dar ao lixo de fazer!
A corrupção não é uma coisa que seja acrescentada ao poder por dúzia e meia de pilha-galinhas com os dedos compridos e os estômagos demasiado grandes. A corrupção faz parte da natureza do poder. Poder é corrupção. É poder ser corrupto. Isto quanto ao poder político, onde, por exemplo, os deputados gozam de imunidade parlamentar, isto é, só têm de responder perante as leis que fizerem se os seus colegas de bancada de futebol lhes tirarem o relvado ou o tapete. Quanto ao poder económico as coisas são mais simples e já foram sabiamente sintetizadas por Bertolt Brecht: "Maior crime que assaltar um banco é fundar um banco". E pronto! Ficamos assim, mas não ficamos por aqui.

 

 

 

GIVE US THIS DAY OUR DAILY POWER

"Truth is nothing but a subtle lie"
Fernando Pessoa

As time melts by (as in the China syndrome), games are to football as corruption to politics.
Is there a lack of fulfillment in Portuguese football? What does this matter? But to compensate, there are corrupted referees, libertine leaders, hulkish cheers, paid-off penalties, disgusting goals, damaged players, forged passes, and licentious offsides (See Corruption in the Synonyms Dictionary).
Is there a lack of goal on politics? Homeless people, stew-with-mashed-potatoes-less people, medicine-less people? No problem! We still have the masons, the university elite and the SIS-tem. At last available in Portugal, just like on other respectful countries such as the US of A, Conspiracy is back to politics from football, in which it was sadly trapped for some time. Salut.
The only thing left is corruption. There are not enough (dirty or clean) hands to handle the job. It seems to me (it is said or, better still, I've heard it being said) that even the power is corrupt, and that politicians, parliamentarians and autarchy members are infatuated with bribes and balls'n'equipment smuggling. But isn't it just that the reason why they are the power? (Allow me to disagree with annalists, oralists, and opinion-makers, they have not the power, they are the power) And what is power? It's the power to be above the law, the power to have more and better, "now and at the hour of our deaths, amen". It's the "Thy kingdom come " of the "give us this day our daily power". A prayer in which one can add any verb to one's power, except for "to rain" or other defective verbs. The rest is just a question of combinatory… and scale. Yes, even among the most powerful ones only a few can start a war, for instances. Just like you can use "can" with any verb, you can can power, except war's power, but they will carry that can.
Corruption ain't no lil'gizmo to screw unto power by a bunch of long-fingered wide-paunched chicken-robbers! No, corruption is part of power's own nature. Power is corruption. It's the right to be corrupt. This in what politics are concerned: for example, parliament members are granted with diplomatic immunity, i.e., they will only be brought to court if their own cheerleading peers throw in the towel on him or pull the field from under him. As for economic power, things are simpler and Bertolt Brecht explained it perfectly and directly: «A more serious crime than robbing a bank is starting one". OK, that's all for right now, folks, although from where I stand I can't see the serpent's other end.

António Pocinho